O ano era 2016. Eu havia voltado a Portugal por uma relação amorosa que, logo, se mostraria ciumenta e violenta. Sem conhecer ninguém mais naquele país, reuni as forças que me restavam e fugi para a Espanha.
Foi de lá que parti para o Caminho de Santiago.
Não tinha um plano. Tinha a necessidade urgente de me reencontrar — de entender quem eu era quando tirava de mim tudo que havia sido construído para os outros.
No Caminho, algo inesperado aconteceu: comecei a me reconectar com as histórias das mulheres da minha família. Avó. Mãe. Tias. Cada uma delas havia vivido dois destinos possíveis — a mulher da família (pertencimento, sacrifício, silêncio criativo) ou a mulher da vocação (liberdade, criação, solidão social). Como se amor e expressão fossem, para nós, escolhas mutuamente exclusivas.
E enquanto caminhava, fui percebendo: eu havia herdado essa narrativa. Ela organizava as minhas escolhas sem que eu soubesse.